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Blogs do curso de Física de Materiais - UPE

Aranha em uma rede

Sair do conforto de casa para viver uma experiência única e repleta de desafios não é nada fácil, mas com um objetivo em mente tudo parece fluir. Muito prazer, me chamo Fellipe Aranha, e vou contar um pouco sobre como, partindo de Recife, estou prestes a chegar ao Oriente Médio.

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Luiz Fellipe Aranha de Oliveira, cientista Fismat

Voltando um pouquinho no tempo, para o ano de 2023: fui abordado pelo meu orientador e professor, Dr. André Vilela. Ele comentou sobre um evento internacional chamado March Meeting (Encontro de Março, na tradução literal), que ocorre todos os anos nos Estados Unidos. É um evento que reúne milhares de cientistas de todo o planeta, que apresentam suas pesquisas de alto nível para outros pesquisadores. A origem do evento remonta à Guerra Fria, quando os EUA formavam uma forte frente de pesquisadores em áreas como física, química e matemática para se sobressair diante de seu maior rival à época: a União Soviética. No início, esses encontros eram voltados à discussão sobre matéria condensada, mas gradualmente passaram a incluir outros ramos da física, como física estatística, eletromagnetismo, física quântica e computacional. Hoje, é um evento que engloba empresas, universidades e, claro, uma imensa comunidade científica. Já encontrei professores de departamentos de biologia, química e engenharia, além de estandes de empresas voltadas à tecnologia e ciência, como Wolfram Research, Elsevier, Google e ThorLabs, entre outras.

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Aranha no APS Global Physics Summit 2025 (summit.aps.org)

Mas como tudo isso se conecta com minha ida ao Oriente Médio? Calma, a história continua. Com toda essa propaganda de um evento gigante e repleto de nomes importantes, meu desejo de participar só aumentava. Então, em outubro de 2023, me inscrevi para o March Meeting 2024, sediado em Minneapolis, no estado de Minnesota. E, como você deve ter adivinhado, eu fui. Mas há algo importante a dizer: não fui de mãos vazias. Apresentei minha pesquisa realizada no CLASSICO, o laboratório computacional do Prof. André. Vale ressaltar que participei ainda como estudante de graduação, e não como doutor ou pesquisador formado. Existe uma percepção na cultura científica brasileira de que só é “cientista” quem tem doutorado. Na verdade, se você conduz pesquisa usando o método científico, você é um cientista. À época, eu trabalhava em um problema de sociofísica, sim, sociologia + física. Sem entrar em muitos detalhes, basicamente investiguei dinâmicas de opinião em sociedades simuladas no computador, em que os indivíduos mudam de opinião à medida que um parâmetro chamado “ansiedade social” varia. Assim, estudamos a dinâmica de opiniões de pessoas, fazendo analogias com sistemas magnéticos do tipo Ising.

Talvez você ainda se pergunte: certo, mas o que isso tem a ver com minha ida para o Oriente Médio? Calma, pequeno gafanhoto, já estamos chegando lá. Minha primeira participação no March Meeting 2024 me deu noção do quão grandiosos são esses eventos e do quanto se fala, de forma intensa, sobre ciência, especialmente sobre o que é e como se faz, networking. O termo vem das palavras inglesas net (rede) + work (trabalho), remetendo a uma rede de pessoas conectadas que colaboram em busca de objetivos comuns. No March Meeting, professores encontram estudantes para novas pesquisas, laboratórios contratam pesquisadores para desenvolver produtos científicos, empresas oferecem vagas para cientistas altamente qualificados, e por aí vai. No entanto, por ser meu primeiro ano, eu ainda estava “verde” para apreciar, de fato, o poder do networking. Mesmo assim, com colegas e amigos, conseguimos fundar o primeiro Chapter da Sociedade de Estudantes de Física dos EUA no Brasil, formado, à época, apenas por graduandos Física de Materiais.

Mas o ponto de virada veio em março de 2025, na cidade de Anaheim, Califórnia, durante o mesmo evento, que agora levava o nome de APS Global Summit. APS é a sigla para American Physical Society (Sociedade Americana de Física). Nesse ano, eu já estava mais “maduro” em relação às atividades de ciência e networking. Foi então, em uma sala qualquer do evento, que conheci um apresentador que mudaria minha trajetória acadêmica: Bynaya Gross, físico israelense, apresentava sua pesquisa intitulada “Physical Realizations of Interdependent Networks: Analogy to Percolation” (“Realizações Físicas de Redes Interdependentes: Analogia com a Percolação”). O estudo tratava de ciência de redes e física estatística, dois tópicos que também pesquiso. Durante a apresentação, tive vários déjà-vus e pensei: “acho que já vi essa figura em algum lugar” ou “essa explicação me soa familiar”. E fazia sentido: dois meses antes, eu havia lido o artigo porque recebi em meu e-mail uma notificação de publicação assinada por Shlomo Havlin, uma das maiores referências mundiais em ciência de redes e física estatística.

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Havlin dispensa apresentações: ex-presidente da Sociedade de Física de Israel, ex-reitor da Faculdade de Ciências Exatas e ex-chefe do Departamento de Física da Universidade Bar-Ilan. Recebeu prêmios como o Prize for Outstanding Research in Physics (1988), o Humboldt Award (1992), o Rothschild Prize (2014) e o Israel Prize for Physics and Chemistry (2018), entre outros. Suas citações passam de 200 mil, e já colaborou com mais de 700 cientistas no mundo todo.

Depois da apresentação de Gross, conversamos por meia hora e, no fim, ele me passou o contato de Shlomo Havlin, mencionando que o professor estava recebendo estudantes de doutorado. Nesse momento, eu já havia concluído o bacharelado em Física de Materiais na UPE e estava iniciando meu mestrado em Engenharia de Sistemas, também na UPE. Após o evento, enviei e-mails para todos os professores e professoras cujos contatos consegui, em busca de possíveis orientações de doutorado. Na minha cabeça, a última pessoa que responderia seria Havlin, dado seu imenso currículo. Mas o inesperado aconteceu: ele foi o único a responder. A sensação foi de cena de filme, como se o protagonista fosse “abençoado” e recebesse um convite especial. A partir daí, nossas conversas evoluíram de e-mails para encontros no Zoom.

Nesse processo, surgiu também um nome importante: Orr Levy, ex-aluno de doutorado de Havlin e hoje pesquisador no Departamento de Engenharia Elétrica da Bar-Ilan. Ele me ajudou a construir a ponte entre Recife e Ramat Gan. Assim, tudo parecia pronto para minha ida, até que… Por eu ter ingressado no mestrado apenas em 2025, a legislação brasileira exige um mínimo de um ano de curso para que eu possa concluir e receber o diploma. Mesmo tendo acelerado intensamente as disciplinas no semestre 2025.1, só poderei me formar oficialmente após completar esse período. E, surpreendentemente, isso não foi um problema! Dr. Orr me explicou que, inicialmente, eu poderia ser contratado como pesquisador visitante até a conclusão do mestrado! Trabalharei nos laboratórios de Orr e de Havlin por um ano e, em seguida, ingressarei no doutorado em Física na Bar-Ilan University.

Essa é, portanto, a história de como estou prestes a sair de Recife rumo a Israel para realizar meu sonho de me tornar um cientista global.

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Quero deixar com vocês algumas lições importantes: não tenham medo de se conectar com as pessoas (claro, sempre com um propósito em mente). Aprendam inglês. Foquem em ser melhores do que foram ontem, um passo de cada vez. E, acima de tudo, cultivem a sociabilidade.

Um forte abraço e até a próxima!

Luiz Fellipe Aranha de Oliveira
Bacharel em Física de Materiais pela Universidade de Pernambuco, mestrando em Engenharia de Sistemas pela mesma instituição e pesquisador visitante na Bar-Ilan University. Teve resumos publicados na 28ª Jornada de Iniciação Científica realizada pela FACEPE, no APS March Meeting 2024 e no APS Global Summit 2025, ambos organizados pela American Physical Society. Foi monitor da disciplina de Equações Diferenciais e estagiário de docência na disciplina de Mecânica Clássica. Participou do projeto de extensão Nivelamento Educalab, voltado ao apoio a estudantes ingressantes do curso de Física de Materiais. É fundador do UPE-SPS Chapter, tendo atuado como vice-presidente e atualmente como conselheiro. Investiga a Física da Dinâmica de Opiniões em Redes Complexas.